Praticantes de Cross Country (XC) nos estradões e single tracks de Juiz de Fora (MG) e arredores.
Se o mountain bike é desafio, encare-o.
Se o mountain bike é aventura, arrisque-se.
Se o mountain bike é luta, enfrente-o.
Se o mountain bike é cansaço, supere-o.
Se o mountain bike é dificuldade, tenha garra.
Se o mountain bike é adrenalina, aproveite-a.
Se o mountain bike é surpresa, descubra-a.
Se o mountain bike é técnica, aprenda-a.
Se o mountain bike é obstáculo, vença-o.
Se o mountain bike é esforço, tenha determinação.
Se o mountain bike é alegria, divirta-se.
Se o mountain bike é apenas um sonho, torne-o realidade.
A dor é passageira. Desistir dura para sempre. (Lance Armstrong)
OS MELHORES LUGARES FICAM DEPOIS DOS PIORES CAMINHOS.
CLASSIFICAÇÃO Níveis de Perrengue
1. Pular cerca
2. Travessia de riacho/atoleiro
3. Erosões/trechos intransitáveis
4. Ataque de cachorro
5. Mato alto ou mata fechada
6. Nevoeiro
7. Montanha Hors-Categorie
8. Chuva
9. Carrapatos (mais de dois por perna)
10. Dificuldade de navegação (perda de sinal GPS)
O vídeo abaixo é parte do filme gravado na Remonta entre julho e dezembro de 2011. Além do registro dos rolés, a primeira parte do filme mostra o XTERRA Camp, etapa de setembro, disputada sob chuva. Com 47 minutos, o curta registra a trilha em várias condições, desde poeira até lama. O trecho abaixo mostra entre a Curva do Boi e o Cotuvelo.
O trecho abaixo mostra entre a porteirinha vermelha depois do primeiro trecho de mata após a represa e o final da trilha. Começa com um capote meu entre as árvores. O vídeo completo mostra muitos outros. Na sessão estão Leandro Leiva, David, Mazão, Digão, Walter, Artur, Dácio, Bernardo, Fabrício e eu.
XTERRA Estrada Real - Tiradentes 23/10/2011
Níveis de perrengue: 2, 3 e 8
4h50 da manhã. O despertador soa insistentemente enquanto do lado de fora a chuva contraria todas as previsões meteorológicas de toda a semana anterior. Desde o domingo anterior todos os sites indicavam 0mm de pluviosidade, o que dia após dia foi, literalmente, por água abaixo.
No sábado a situação se agravou. Por volta de 11h00 a chuva caiu forte e permaneceu constante ao longo do dia, varando a noite. Vindo de uma semana de chuvas esparsas, o que não foi suficiente para encharcar o terreno, havia ainda uma esperança de tempo firme durante a prova. Brotava aí a dúvida sobre as condições na pista. Informações de mau tempo em Tiradentes começavam a pipocar na internet.
Na madrugada de domingo, vendo que não havia trégua na chuva, decidi desmontar a bicicleta e transportá-la dentro do carro para poupar o equipamento. Na tarde anterior já havia aberto mão de fazer uma limpeza estética em favor de uma limpeza mecânica mais detalhada e uma boa lubrificação para tempo úmido, buscando uma sobrevida no bom funcionamento da relação em caso de mau tempo.
Em pouco tempo as peças disputavam espaço com ferramentas, sapatilha e outros acessórios do kit de viagem, preparados de véspera.
A viagem em direção a Tiradentes iniciava com certo atraso devido ao tempo gasto com o plano B do transporte da bike, tendo ainda a certeza de mais outra parcela de tempo a ser gasta entre a chegada ao destino e a largada da prova para a remontagem, além do previsto para a retirada do kit, troca de roupa e fixação dos numerais.
Na estrada, a cada quilômetro, o tempo não dava sinais de melhora e decidi que alinharia o desânimo para alinhar começou a aparecer. Num rolé se a chuva cai durante o rolé, em alguns casos, é até bem-vinda. Mas já sair debaixo de chuva não é nada bom.
Saindo de Barbacena fui encontrando outros carros carregando bikes. Percebi que não era o único louco naquela empreitada. Pelo menos eu e outros três malucos estaríamos na trilha dentre em breve.
Chegando a Tiradentes vi que bem mais que quatro bikers estavam dispostos a se embrenhar na Serra de São José. Sob chuva retirei o kit, montei a bike, troquei de roupa, coloquei as ferramentas no bolso, calibrei o GPS, fiz um lanchinho pré-corrida e fui receber o carimbo na perna da minha categoria. Recebi uma lata de energético de brinde e me dirigi ao bolsão de largada para alinhar. Pouco mais de 100 atletas se agrupavam para o início da prova que seria em um comboio controlado que percorreria 8km. A chuva reduziu um pouco, mas não parou. Por alguns instantes foi possível até esquecê-la.
Dado o sinal de largada, os bikers inicialmente deram o tiro, mas foram contidos pela organização que segurava o ritmo. Por entre os casarios históricos o pelotão foi se deslocando. As construções davam um charme à parte ao percurso, mesmo sendo um trecho urbano e calçado de pedras. O deslocamento se deu até Santa Cruz de Minas, onde fizeram um retorno até a parada sob outro pórtico à beira do caminho, de onde foi feita a largada cronometrada.
O pelotão voltou até o ponto da primeira largada (cerca de 7km) pelo caminho da ida, de onde de fato iniciou-se a marcação de quilometragem, para a surpresa de muitos.
No quilômetro 3 (ou 10, se levar em consideração o “trecho surpresa”), começava a primeira subida forte. De cara o primeiro bolsão de lama indicava como seria a condição do terreno durante a maior parte da prova. Manter-se sobre a bike era o maior desafio. Manter-se de pé era um grande desafio. As subidas iniciais foram de empurra-bike, aos trancos e barrancos (e escorregões) os atletas foram empurrando seu equipamento morro acima. Escolher mal onde pisar poderia ser a deixa para um tombo. O comentário geral era de que quando a esmola é muita, o santo desconfia: Red Bull, Gatorade e água distribuídos fartamente na largada só poderiam ser sinal de roubada à frente.
A chuva caia insistentemente. A água fria há muito já tinha esfriado meu lado competidor (na verdade isso não é muito difícil), mas aguçou o lado aventureiro. O único objetivo era aproveitar o rolé, que tinha todos os ingredientes para ser memorável. Grossas raízes cruzavam o percurso, intercalados por curvas fechadas e grandes blocos de pedra encravados no solo. O local era belíssimo e o clima, principalmente no meio da mata, onde chegava a baixar um fraco nevoeiro, dava ares de mistério ao percurso.
Este, por sua vez, foi um caminho de limites. Por inúmeras vezes a situação se equilibrava na tênue linha que separa a diversão da roubada. O limite entre o controle e a falta dele. O limite do equilíbrio e a luta contra a gravidade e a falta de atrito dos pneus com o solo para mantê-lo. Limite da paciência em limpar relação e pneus para permitir o giro livre das rodas e aliviar o peso para carregar a bike nas costas por vários metros em diversos pontos. Limite entre o calor do corpo e o frio da chuva.
Nos trechos de floresta, a água se acumulava nas folhas e grossos pingos precipitavam-se das árvores, dando impressão de que a chuva estava ainda mais forte. Os estalos das gotas batendo no capacete eram uma constante. A água se misturava ao suor e escorria nos olhos. Do solo, em vários trechos, o som que vinha dos pneus chapando a lama ocultava outros ruídos. Os óculos embaçavam, mas era impossível dispensá-los sob pena de respingar lama nos olhos.
A lubrificação feita na véspera e os esforços para poupá-la no transporte deram resultado. Pelo menos nos primeiros dois terços do percurso o equipamento funcionou muito bem, ou pelo menos tão bem quanto possível diante de uma situação tão extrema onde todo o conjunto era constantemente posto à prova. Freios deixaram na mão antes disso, tendo um desempenho razoável. No final já não existiam mais sapatas de freio, o atrito “ferro com ferro” fazia um ruído horrível e, logicamente, não garantiam uma frenagem segura ou eficiente. Apenas em duas trocas de marcha ocorreu chain suck.
A lama, na verdade, não era o pior dos problemas. A situação mais adversa era o barro, que grudava nas rodas travando-as, deixava a bike pesada, bloqueava câmbios e entrava entre as travas das sapatilhas deixando tudo mais escorregadio. Ora se avançava empurrando a bike com a roda travada, mesmo com todo o esforço que isso exigia. Ora voltava-se um pouco a bike de ré para eliminar os excessos de barro. Ora socava-se a bike contra o chão para cair o barro. Ora limpava-se a bike com gravetos para aliviar o peso e colocar a bike nas costas. Mas o que era mais eficiente era água. Nos pontos de hidratação (e nisto a prova estava muito bem servida), geralmente a quantidade de copos de água mineral para os bikers era o mesmo utilizado para jogar na corrente e onde mais fosse necessário. Na falta destes, riachos e lagos eram banheiras naturais para as bikes que eram jogadas dentro d’água para serem lavadas.
Apesar disso muitos foram vítimas da lama, seja por tombo ou por arrebentar a corrente da bike devido à combinação esforço / sujeira. Era fundamental condicionar a pedalada para evitar muito esforço em marchas de câmbio cruzado. Valia a pena cadenciar mais rápido do que se deslocar mais rápido. Tamanha era a quantidade de lama que alguns, ao furar um pneu, abandonavam a câmara usada graças à dificuldade para manuseá-la.
A estratégia para evitar tombos era permanecer nas valas longitudinais onde corria a água. Como este era o ponto mais baixo, qualquer traçado diferente era forçado contra a gravidade. Pela falta de atrito, invariavelmente a bike voltava à vala sem aviso, e isto nem sempre era uma coisa suave.
Com todo o perrengue, a duras penas o percurso foi sendo vencido. Com a chuva os computadores de bordo falhavam frequentemente, e a marcação sendo a cada 5km fazia com que os bikers perdessem a noção do quanto haviam pedalado. As informações com os fiscais de prova eram desencontradas, muitos informavam a distância errada e os atletas eram surpreendidos quando encontravam as placas de marcação. Da metade da prova em diante, onde eram mais freqüentes os bolsões de barros, a prova se desenrolou mais devagar. Pedalava-se muito e a sensação era de que pouco havia sido percorrido.
Nos trechos mais pesados chegava a passar na cabeça a idéia de abandonar a prova. O psicológico, muitas vezes era mais desafiado que o físico. A medalha de survivor nesse caso servia de incentivo e meta a ser alcançada.
Aos 35km (42km com o “trecho surpresa”), após um trecho de quase 1km de empurra-bike no barro, onde a solução era trazer a bike no pasto paralelamente à trilha, uma mangueira ao pé da cerca de uma fazenda ajudou bastante a amenizar os problemas do barro na relação e freios. A lubrificação, a esta altura, já tinha dado seu último suspiro. Durou muito, diga-se de passagem. O Finish Line verde me provou que funciona de verdade, mostrou a que veio.
Sem pastilhas, o freio estava xoxo e para funcionar basicamente a solução era bombear a manete até o pistão encostar-se ao anteparo da sapata e esta se atritar com o disco. Atravessar dois riachos pouco antes da chegada só serviu para limpar a bike e as sapatilhas, pelo menos o tanto que uma passagem rápida na água poderia fazer diante de tanto barro.
Completei em pouco mais de 5 horas, ainda sob chuva, mas com a sensação de vencer um grande desafio pessoal. Não contra outros atletas, pois desde o início não disputei nenhuma posição. A batalha foi contra os obstáculos naturais, contra a chuva e contra os limites impostos por mim mesmo diante das dificuldades do percurso.
Depois disso tudo, não teve jeito. A bike foi parar na oficina no dia seguinte para revisão geral. Palavras do mecânico: "tinha mais lama do que graxa dentro da sua suspensão". Fat Biker XC [+]
Cachoeira do Arco-Íris 01/10 e 06/11/2011
Níveis de perrengue: 1, 3, 4 e 7
Na onda das trip trails, o destino desta vez foi a Cachoeira do Arco-Íris. Juntando informações de diversas fontes, montamos o roteiro e partimos em duas datas para o rolé. Na primeira vez fui com Ciro e Filippe, na segunda com o Bernardo.
Partimos do posto de gasolina na entrada 3 de Lima Duarte. Os 4,5km iniciais foram no asfalto, na BR267, e serviram para aquecer as pernas. Abandonamos a rodovia iniciando uma subida moderada em estradão até as proximidades do quilômetro 9. Deste ponto era possível observar o que nos esperava: a face oeste da Serra de Lima Duarte. Uma pequena descida e um curto trecho plano antecediam a parte mais desafiadora.
Bernardo
Bernardo e Wagner
Bernardo
A diferença a partir deste ponto nas duas vezes em que estivemos lá foi o clima: na primeira vez subimos a serra sob forte sol, que contribuiu para dificultar a subida. Já na segunda vez, a temperatura estava bem mais baixa.
Partimos de 860m de altitude, após uma porteira onde o estradão bem conservado acabava e iniciava-se um trecho de subida forte bastante erodido e com pedras soltas, que muito lembrava em sua primeira parte a subida da Serra da Babilônia, na Fazenda da Fortaleza de Sant’Anna. A inclinação, com freqüência, ultrapassava os 30%, com um pico de 36%. Esta primeira parte culminou em 1073m de altitude após cerca de 900m de deslocamento (inclinação média de 23,6%).
Bernardo e Wagner
Ciro, Wagner e Filippe
No trecho seguinte, um pequeno alento que mesclava plano e descida. O terreno já começava a mudar sensivelmente e bolsões arenosos se alternavam no caminho. Passamos próximo a uma casa e reiniciamos a subida, entrando em um trecho mais arborizado. A areia tornara-se mais frequente e a pedalada ficava mais penosa à medida que avançávamos. O trecho lembrava muito a subida do pico da Lombada, em Ibitipoca, por começar a apresentar uma vegetação de candeias e muitas bromélias, além da camada de cascalho branco que recobria o solo preto. Sem dúvida uma das piores subidas da região. O prêmio veio aos 1270m de altitude, ponto mais alto do rolé, após penosos 1,2km de subida. Do alto víamos boa parte do trecho que havíamos percorrido até ali, pouco menos de um terço do rolé todo, mas que era responsável pela maior parcela do desgaste físico daquele dia.
Refeitos após apreciarmos a paisagem, retomamos a pedalada transpondo alguns bolsões de uma areia grossa e cinzenta, talvez suja pela argila seca do caminho, que nos impedia de pedalar. No cume o caminho fazia uma mudança brusca à esquerda, rumando para o sul. Uma nova paisagem se descortinou, de altos montes cobertos pela floresta com clareiras brancas de areia. O sol, nas duas investidas por estas bandas, brilhava forte. Iniciamos uma descida forte, recheada de longos trechos de areia que testavam nosso controle sobre as bikes. Os toques no freio tinham que ser sutis, e somente no freio traseiro. A roda dianteira tinha que rodar livre, qualquer movimento mais forte tirava a frente da bike do curso, que se enterrava de lado levantando poeira.
Bernardo
Bernardo
Ciro
Filippe
Passando esta parte mais crítica, encontramos uma casa de sapé, cercada de pequenos eucaliptos. Continuamos nossa descida, encontrando diversas vezes trechos arenosos. Como em Ibitipoca, as variações do tipo de solo eram freqüentes. Atravessamos algumas porteiras e cruzamos um curso d’água que saltitava no meio da mata alimentando a cachoeira que visitaríamos.
Seguimos vencendo o relevo, que vez ou outra nos surpreendia com alguma pequena subida. Nas empoeiradas descidas soltávamos os freios, curva após outra, até que encontramos uma placa indicando a Cachoeira Garganta e Cachoeira do Y. Enveredamos pelo singletrack, por cerca de 500m, até achar uma bela surpresa: uma piscina natural com uma cachoeira ao fundo. A parada foi obrigatória, fizemos ali nosso lanche e nos refrescamos na água fria que vinha das montanhas.
Revigorados, voltamos ao caminho planejado e a pouco mais de 1km à frente paramos no nosso destino, a Cachoeira do Arco-Íris, uma queda de mais de 50m. Um grande paredão circundava a cachoeira, sendo que o bloco da direita tinha inclinação negativa. O vento que soprava frontalmente levantava uma névoa de gotículas de água. Encostamos as bikes nas árvores, tiramos os acessórios e fomo aproveitar aquela maravilha.
Filippe
Bernardo e Wagner
Cerca de meia hora depois continuamos nosso percurso, agora por um estradão de uso contínuo. O caminho de volta não reservava grandes atrativos, exceto por uma longa descida que garantiu alguma adrenalina final. O restante era um sobe e desce numa estrada de terra bem larga, onde girávamos os pedais mantendo boa velocidade até atingirmos o asfalto, a poucos metros de onde havíamos deixado a rodovia no início do rolé.
Apesar de ser uma volta de apenas 38km, é um circuito bem pesado que facilmente se equipara a um rolé de 70km em condições normais.
Trilha da Invernada / Torreões 24/09/2011
Níveis de perrengue: 1, 5, 8, 9 e 10
7h00 da manhã, nada do Bernardo no ponto de encontro. Calibrei os pneus, o GPS já estava ligado. Liguei e o telefone não atendia. Havia recusado um rolé pelas imediações de Lima Duarte / Ibitipoca e agora teria que pedalar sozinho. Não desanimei, afinal o mountain bike é um esporte onde basta você e sua bicicleta para haver diversão. E para valer ter recusado um convite para Ibitipoca, teria que cumprir o roteiro planejado para hoje.
Após as últimas competições, queria aproveitar o mountain bike em sua essência: a auto-suficiência, a resistência física e a busca por aventuras em lugares novos. O caminho escolhido foi uma miscelânea de percursos pesquisados entre internet, Google Earth e trajetos conhecidos.
Parti então rumo à BR040, de onde saí pegando o Barro Branco e posteriormente a Porteira Vermelha. Continuei descendo pela estrada do Rancho’s em direção a Humaitá. Até aí nenhuma novidade, só velhos caminhos. Quase 2km após a saída do Cimentado, subi à direita pegando um caminho que encurtou meu traslado até a antiga Cachoeira de Humaitá. Monitorando o percurso pelo GPS, adentrei um pasto seguindo um tênue singletrack que enveredava subindo suavemente no vale adiante. Ali tive meu primeiro contratempo, o pneu traseiro furado. Pacientemente troquei a câmara, não tinha qualquer compromisso com o tempo.
Parti pela trilha, cujo piso variava entre terra seca e uma grossa camada de folhas caídas. Rapidamente alcancei uma cerca, onde havia alguma tronqueira que não consegui localizar, pois a trilha seguia adiante entre uma floresta de eucaliptos. Sem pestanejar, pulei a cerca e prossegui. Entre as árvores a trilha exigia mais técnica, alguns galhos caídos e curvas mais abruptas mudaram sensivelmente o estilo do caminho.
Havia várias bifurcações. Apesar da curiosidade, segui o traçado indicado pelo GPS e logo a trilha chegou em um estradão, não muito largo, que contornou vários morros em um sobe e desce suave. O caminho foi se estreitando e dando, cada vez mais, sinais de que o trânsito por ali se restringia a uns poucos automóveis de sitiantes. O estradão terminava dentro de uma propriedade no meio de um vale, porém paralelamente à cerca iniciava um singletrack que subia pelo flanco direito. Lá no alto uma porteira.
Os barulhentos tucanos, no topo do morro, ao notarem minha presença, voaram. Ao contrário dos carrapatos, que pareciam me esperar na folhagem que margeava a trilha. O caminho ia seguindo entre pequenos arbustos e touceiras. Novamente terminou em um estradão. A paisagem ao redor lembrava bastante alguns pontos de Ibitipoca: maciços rochosos nas encostas, árvores que lembravam as candeias, musgo pendurado em alguns galhos, grandes desníveis entre as escarpas.
O estradão adentrou outra floresta de eucalipto e ao passar em uma curva, o pneu dianteiro começou a esvaziar rapidamente. Havia sido furado por um pequeno pedaço de lata. Parei, desta vez para colar a câmara. Com o reparo feito, subi novamente na bike e prossegui entre os eucaliptos.
Não muito distante dali, encontrei um trecho já conhecido da rota entre Juiz de Fora e Lima Duarte. Faltava pouco para chegar a Pirapetinga. Assim que saí dos eucaliptos, saí do caminho principal pela esquerda, já avistando o Rio do Peixe a montante da UHE Picada.
O caminho, por ser uma via secundária, era ainda menos usado. Em pouco tempo começaram a aparecer algumas placas na cerca indicando que se tratava dos limites da área de preservação permanente da hidrelétrica. O GPS indicava um caminho que ia paralelo à cerca, então tudo bem. Ao chegar em uma propriedade e GPS indicava que o caminho prosseguia à frente, num trecho onde o mato estava alto, porém quebrado pela passagem de animais e talvez até de algum veículo.
Começava neste ponto a parte de maior perrengue do rolé, pois o caminho há muito deixou de ser frequentemente utilizado. Em alguns lugares era possível ver ainda um resquício de singletrack, mas o mato progressivamente ia tomando a trilha. Sempre subindo, em alguns pontos era impossível pedalar. O visual do entorno era muito bonito, dava para ver o Rio do Peixe de cima, margeado por duas grandes porções de mata atlântica.
Quando a trilha começou a descer, o GPS foi primordial porque havia várias mudanças de direção que o mato havia encoberto. Em certo ponto tomei um capote ao prender o pedal em um pequeno toco de árvore escondido em uma touceira. Sem mostras de melhora e a cada vez avançando mais mato adentro, o desejo de que o caminho abrisse era crescente. Voltar não era opção.
O caminho seguia baixando mais e mais, embrenhando no vale. De repente um songletrack praticamente limpo apareceu e coincidiu com o traçado do GPS. Por um instante tudo pareceu melhorar. Deparei-me com as ruínas de uma pequena ponte de madeira, onde apenas as longarinas ainda estavam de pé. Era a transposição de um pequeno córrego, afluente do Rio do Peixe. Do outro lado, as condições do caminho estavam melhores ainda. Uma queimada recente parecia ter limpado o excesso de mato e restavam apenas pequenos arbustos e árvores. Parecia ser o fim de um estradão, que novamente começava a subir. Comecei a pedalar ao passo que o tempo fechava. Já havia notado certa piora no tempo em uma parada no caminho: ventava e escuras nuvens se avolumavam no céu. Julguei que, se chovesse, seria ao fim do dia. Julguei errado.
Passava de meio-dia, havia perdido muito tempo nas trocas de pneu e vencendo o matagal. Estava bastante atrasado em relação à previsão de chegada que havia feito. A chuva começou a cair e eu estava no meio de uma floresta queimada. Segui subindo e dentro de poucos metros o GPS me surpreendeu indicando uma curva abrupta à esquerda, na direção de uma encosta bem inclinada, onde não havia, num primeiro momento, nenhum sinal de caminho. Voltei, passei mais devagar tentando observar algo diferente, alguma trilha... Nada. E a chuva caia cada vez mais forte. Diminui o zoom da tela para ter uma visão mais global do caminho e tentar situar uma possível perda de sinal do GPS de quem mapeou, o que poderia resultar em um segmento reto até o ponto de restauração do sinal. Ao invés disso o traçado à esquerda era uma curva constante e que seguia em uma direção diferente da que eu vinha seguindo, ou seja, nada de errado com o traçado.
Comecei a supor que o tracklog que eu peguei fosse de trilha de moto, afinal a graça da moto é subir pelos lugares mais complicados. Larguei a bike em um canto, tirei o GPS do guidão e fui seguindo com ele na mão. Era muito mais fácil subir a encosta e passar entre as árvores sem ter que carregar nada, até achar alguma referência ou o caminho correto. Pela quantidade de árvores o aparelho perdia em precisão, ao mudar de direção a leitura nem sempre era imediata e nem sempre era correta.
Segui passando entre os galhos cobertos de fuligem, com as cinzas do chão grudando na sapatilha molhada e nas pernas. Achei uma cerca e uma estrada que seguia após ela, que se aproximava novamente do traçado do GPS. Como do outro lado era um pasto, o sinal do GPS melhorou consideravelmente.
Decidi voltar, pegar a bike e subir até este ponto, onde pularia a cerca. Voltando até a bike notei que o traçado que o GPS indicava estava à minha esquerda, mais embaixo. Parei para observar melhor o local e constatei que realmente se tratava de um estradão que foi totalmente tomado pelo mato e por pequenas árvores. Era impossível passar por ali, mesmo que empurrando.
Peguei a bike e, aos trancos e barrancos, subi novamente até a cerca, cada vez mais sujo de fuligem. Pulei a cerca e fui seguindo o estradão, que nada mais era que a continuação do trecho tomado pelo mato. O GPS, porém, indicava uma subida à direita, atravessando o pasto. E foi o que fiz.
Lá em cima havia outro estradão e este, finalmente, coincidia com o indicado pelo aparelho. Mais algumas pedaladas morro acima me levaram a uma rua asfaltada. Estava em Torreões. A chuva já tinha molhado tudo.
Subi em direção à praça e lá parei para fazer um lanche. O céu indicava que havia mais chuva por vir. Alimentado, retomei a pedalada, mas agora repensando o trajeto do retorno. Inicialmente planejara, após passar nas imediações de Humaitá, subir os Três Downhills e descer o Yellowstone para finalizar a volta subindo o Vagão e de lá ir para casa.
A chuva ia e voltava. O estradão não chegou a enlamear, mas várias poças se formaram. Continuei pedalando, atravessando diversas propriedades. Vários quilômetros monótonos de estradão depois, atingi o gasoduto bem próximo ao estradão do Rancho’s e continuei minha subida, agora de novo por terras conhecidas. Não havia mais chuva e sim várias nuvens ameaçadoras. Decidi, por fim, evitar o trecho planejado a partir dos Três Downhills e substituí-lo pela Porteira Vermelha e Barro Branco.
Assim, completei o percurso com 82km percorridos e ascensão acumulada de 1959 metros. Fat Biker XC [+]
XTERRA Camp Juiz de Fora (Remonta) 18/09/2011
Níveis de perrengue: 2, 3 e 8
O XTERRA foi criado em 1996, como um duelo entre triatletas e praticantes de mountain bike, na Ilha de Maui, Havaí. Na época, ficou conhecido como "Aquaterra". Com diversas modalidades esportivas, se espalhou pelo planeta e hoje forma um calendário mundial de provas, do qual o Brasil faz parte desde 2005, junto a outros 16 países, totalizando mais de 150 etapas pelo mundo anualmente.
Eleita como um dos melhores circuitos de mountain bike no Brasil, a etapa do XTERRA Camp em Juiz de Fora foi realizada no dia 18 de setembro, com largada na Represa João Penido pouco após a competição de natação. No dia anterior aconteceram as provas de triathlon e trail run.
O clima no dia não estava dos melhores, mas excelente para o mountain bike. Ventava um pouco e chegava a fazer um pouco de frio. Nuvens pesadas e ameaçadoras prometiam chuva. Encontrei com o Leandro Bissoli e o Rodrigo Müller. Pegamos nossos kits, demos umas voltas para aquecer e nos posicionamos no bolsão de largada, juntamente a cerca de 100 bikers. Dentro de alguns minutos foi dada a largada e todos saíram devorando os primeiros metros de asfalto.
A primeira seleção natural já ocorreu no asfalto, em cerca de 1km de prova. O pelotão foi se desfazendo em uma longa fila indiana e os mais treinados tomaram a dianteira se acotovelando na entrada da trilha, onde um afunilamento na porteira gerou um pequeno congestionamento onde alguns atletas mais nervosinhos começaram a reclamar.
Como estou no grupo dos mal-treinados (não dos piores, mas me encaixo no segundo pelotão dos intermediários, o que no futebol equivaleria a um time série C), já no início assumi uma posição confortável entre os que não estavam muito para o pódio. Entrei na trilha e, já bufando após o primeiro morro, via os primeiros sumirem ao longe. Mantendo o ritmo dos que estavam próximos a mim, entrei no singletrack subindo. A esta altura a fila indiana começava também a se dispersar em trios, duplas ou bikers isolados (meu caso), até atingir novamente o estradão.
Subindo novamente, algumas poucas posições iam sendo disputadas e a descida até outro trecho de asfalto, onde um grupo de observadores e organizadores estavam iam motivando cada um que passava na curva onde o ritmo aumentava. Dali até novo trecho de terra, onde se iniciava nova subida, os bikers foram reagrupando e alcancei o Leandro, que tinha me deixado para trás após o primeiro singletrack.
Fomos subindo e alguns poucos pingos de chuva começaram a cair. Cada um se adequando a seu ritmo, fomos nos distanciando. A subida era longa, mas suave. Após atingir o ponto mais alto, seguimos descendo até atingir a Fazenda Ribeirão das Rosas, tudo isso entro da área militar. Da fazenda em ruínas para frente havia outra subida, tmabém suave, porém longa. Pouco antes de abandonarmos o estradão, por um singletrack à esquerda, havia o primeiro ponto de hidratação. Até então, desde o asfalto, todo o percurso havia sido feito em cima do antigo traçado da Estrada Real.
O trecho de singletrack já era velho conhecido dos treinos anteriores na Remonta. Surpreendeu aos atletas de fora. Na trilha ouvi diversos comentários dos que não conheciam o percurso como “está subindo demais” ou “o circuito é todo assim?”. Para quem conhecia acabou sendo mais tranquilo, mas isso acaba acontecendo em todos os lugares. Os locais acabam levando alguma vantagem por saber onde poupar esforços, onde empregar determinada marcha, onde frear, onde soltar os freios, etc.
A ponte sobre o córrego, logo no início do singletrack, recebeu um compensado para garantir a segurança dos atletas. As demais passagens em atoleiros também estavam, em sua maioria, com troncos dispostos transversalmente para facilitar a passagem. Na última subida, antes das proximidades do Parque Independência, talvez o ponto mais alto do circuito, vários bikers começaram a empurrar, principalmente os que não conheciam o percurso. As várias raízes e a terra úmida que acabavam dificultando a subida, aliados à mata fechada e à baixa velocidade fazia alguns “motores ferverem”. Sorte minha, dexei alguns para trás neste ponto.
Atingindo o cume, restava pedalar para baixo. A chuva que até então ameaçava a cair deu as caras nos morros à frente. Era questão de tempo até chegar ao circuito. Desci a primeira parte, atravessei o atoleiro do lado do curral e segui pela parte plana, onde a chuva começou. A boiada apareceu na hora vindo cruzando a trilha e quase me parou. Quem vinha atrás acabou perdendo algum tempo. Em alguns segundos a chuva caia com vontade, mas não durou muito.
Cruzei o riacho e comecei a subida entre ele e o cotovelo (aquele que todo mundo que já passou por esta trilha já ficou no meio pelo menos uma vez). A esta altura começava a alcançar outros bikers, já abatidos pelo percurso pesado. Subi o cotovelo e a subida posterior até o cume, onde começou a outra parte rápida da trilha, até atingir a represa.
Abri a segunda volta após passar pelo trecho de mata e, já sem aquele desespero todo de início de corrida, passei pelos trechos seguintes em ritmo melhor, com o corpo já aquecido, ao contrário do começo da primeira volta. No pequeno trecho de asfalto, havia desta vez o apoio de minha mãe, esposa e familiares.
Retomei o estradão subindo pela terra agora úmida. Atingi novamente a Fazenda Ribeirão das Rosas, vez ou outra oscilando as posições com os bikers que encontrava. Pedalando mais, atingi novamente o PC de hidratação e peguei o singletrack tentando me manter à frente de um biker do qual só ouvia o barulho e via de relance suas aproximações. Sustentei minha posição arduamente, por mais que soubesse que não ganharia nada com isso. É interessante notar o quanto o espírito competitivo aflora em algumas circunstâncias, mesmo não valendo nada.
Novamente o trecho de raízes e mata foi decisivo, me afastei à frente e só fui ser ultrapassado quando, após atravessar o riacho, mais de dois quilômetros à frente, comecei a notar a frente da bike oscilar demais e percebi que o pneu dianteiro começava a murchar. Em nenhuma competição anterior havia acontecido este tipo de problema, e provei o quanto é frustrante ver vários competidores passar enquanto se faz o conserto.
Terminei de empurrar na subida até achar um lugar adequado para parar a bike e trocar a câmara de ar. Tive a desagradável surpresa de encontrar minha câmara reserva furada por atrito com a bolsa de selim. Como o pneu havia furado por um galho com alguns espinhos, minha primeira reação foi tentar colar a câmara reserva, porém havia mais de um furo e o outro eu não consegui localizar. Na câmara que estava na bike já tinha localizado os buracos, todos próximos, que poderiam ser colados com um único (e meu último) remendo. Com o trabalho feito, havia perdido cerca de 13 minutos e 15 posições.
Comecei uma corrida de recuperação. No cotovelo despachei dois, na parte rápida do pasto outros dois, na subida após a represa mais dois, na porteira da trilha (chegando ao asfalto) mais um, e por fim um último pouco antes da linha de chegada. Completei a corrida em 3h04, com média de 15,1km/h. O Rodrigo já havia chegado cerca de uma hora antes e me aguardava com uma cerveja na mão. O Leandro chegou pouco depois de mim.
Missão cumprida: medalha de finisher no peito. Ou melhor, survivor. Fat Biker XC [+]
Copa Internacional MTB Congonhas 21/08/2011
Níveis de perrengue: 2 e 7
A etapa de Congonhas da Copa Internacional de MTB é uma das principais competições no formato maratona do país. Impressiona pelo número de atletas que reúne: cerca de 1200, entre profissionais e amadores. Participei pelo terceiro ano consecutivo, na categoria cadete.
Saindo de uma gripe contraída cerca de dez dias antes da competição, não estava nos meus melhores dias (não que isso faça muita diferença, a medalha de finisher estava me esperando no final do mesmo jeito – a partir do 6º colocado, todas as medalhas são iguaizinhas). Logo após a largada percebi que o corpo ainda trazia os efeitos do antiinflamatório e o peso da fadiga no organismo. A força, semelhante à que fazia nos treinos e voltas anteriores à gripe, vencendo os morros de coroão, logo começaram a me dar câimbras e fraqueza. O jeito era girar para terminar a prova e, se o corpo se acostumasse com o esforço, tentaria melhorar o ritmo nos quilômetros finais se ainda houvesse gás.
Assim o fiz, ao menor sinal de subida já baixava as marchas para coroa do meio ou coroinha. Nas descidas soltava os freios, entrando na nuvem de poeira levantada pelos outros competidores. O clima estava extremamente seco, mas o sol não apareceu naquele dia, o que ajudou bastante a minimizar o desgaste. Perdia muitas posições nas subidas, recuperava algumas nas descidas, e assim fui até o final.
O curioso foi que, talvez por já conhecer o circuito, achei que o primeiro trecho (e mais pesado, diga-se de passagem) passou muito rápido, e logo estava no ponto de apoio em Alto Maranhão. Ao mesmo tempo em que isso deu mais confiança, o corpo já dava sinais de pequena melhora (talvez o efeito psicológico de já ter vencido a pior parte) e naturalmente fui aumentando o ritmo. À frente ainda estava a totalmente esburacada descida na terra que mais parecia um talco de tão fina e seca. Vi gente caindo, poeira levantando...
Em seguida apareceu a última subida antes de chegar à cidade, um estradão bem largo, onde boa parte dos passantes estava empurrando. Talvez pela energia poupada no início, ganhei algumas posições ao subir pedalando (como já disse, não faz diferença nenhuma – apenas moral interior). Na descida, deixando o grupo para trás, terminei atravessando o riacho e partindo para o longo trecho plano. Nesta parte a regra era coroão e peãozinho: pedaladas fortes e alta velocidade. A terra virou asfalto, o asfalto virou pedra sabão, e logo surgiu a última e temida subida, a ladeira da Basílica de Bom Jesus do Matosinhos, no topo da qual estava toda a estrutura de chegada e premiação.
Concentração e força morro acima, cada pedalada avançava a bike alguns centímetros nas traiçoeiras pedras. Todo esforço foi recompensado quando, à frente da Basílica, recebi minha tão esperada medalha de finisher, após 2h30 de pedaladas ininterruptas. Apesar de tudo, em relação ao ano anterior, melhorei meu tempo em 19 minutos, ficando minha média em 15,5km/h para percorrer os 38km do percurso. Fat Biker XC [+]
Serra de Lima Duarte 18/06, 09/07 e 16/07/2011
Níveis de perrengue: 1, 2, 3, 4 e 7
Definitivamente um dos rolés que poderiam ser listados em um top ten do mountain bike na Zona da Mata Mineira. Com o intuito de continuar e finalizar as filmagens do 10º filme do Barrigudos Bike Clube, refiz o rolé por três vezes acompanhado por Leandro Leiva, Leandro Bissoli, Rodrigo Paschoalino e Joselayne Pessoa em datas diversas, sendo que na última fui sozinho para fazer os últimos takes. Na penúltima saimos de Juiz de Fora sob um frio de 11ºC. Esta era a temperatura às 6h30, pouco antes da partida de carro para Lima Duarte. A sensação térmica, no entanto, era bem mais baixa. Pouco após 7h00, os carros pegaram estrada.
Wagner Sarchis
Em Lima Duarte após preparar todo o equipamento necessário e os acessórios, iniciamos a pedalada. Pouco mais de 15km de asfalto foram o suficiente para esquentar as pernas e preparar o espírito para a trilha.
A partir de então as subidas um pouco mais fortes se alternavam com trechos planos e, progressivamente, os bikers foram acumulando altitude. Entremeando fazendas e pastos, passamos por minas de água cristalina, riachos e árvores frutíferas à beira do caminho.
Até os 25km, ponto da primeira parada, o caminho foi tranquilo, com poucos acidentes de relevo e praticamente nenhuma dificuldade. No único comércio do caminho, uma vendinha daquelas de roça onde há de tudo, fizemos um lanche a fim de garantir forças para o trecho final do percurso.
Comida no papinho, pé no caminho... ou nos pedais. Deste ponto em diante o relevo já mudava sensivelmente em relação ao primeiro trecho. O sobe e desce, apesar da inclinação moderada, era mais constante, passando a exigir mais dos bikers. Uma subida, logo após uma fazenda com ares centenários, se destacou em relação às demais devido ao tamanho. Serpenteava rumo ao topo em um sem fim de pequenas pedras soltas e saibro. No cume, o visual de 360º era um prêmio. O vento aliviava o calor da subida a baixa velocidade. Uma porteira dava acesso a uma fabulosa descida, que levava a praticamente a mesma cota do início da subida. O mergulho rumo ao vale era o destino.
Uma após outra as várias porteiras da região foram sendo atravessadas. Os cachorros, vez por outra, tentavam defender as propriedades de seus donos correndo atrás dos “invasores”. Cada vez menos eram vistos sinais de civilização. A mata foi se avolumando, a serra se aproximando e o caminho se estreitando.
A partir dos 40km percorridos o rolé sai do marasmo do estradão e parte para a adrenalina do singletrack. Ainda subindo, a trilha reserva surpresas como raízes e pedras encravadas, além de um despenhadeiro à direita do caminho que avança mata adentro. A subida se estende por aproximadamente 1km, com inclinação média de 10%, culminando em 1020m de altitude. A mata fechada abre-se em uma clareira pela qual a trilha inicia uma forte e técnica descida. O clima seco do inverno faz com que a argila do solo, fina como talco, levante uma espessa nuvem de pó perante a passagem dos pneus.
Leandro Leiva
Rodrigo, Leandro Bissoli, Joselayne, Wagner Oliveira e Wagner Sarchis
A trilha, esgueirando-se entre as pedras, entra então em um bambuzal, onde qualquer vara caída longitudinalmente pode significar um tombo. Por melhor que seja o pneu, a borracha não adere à superfície lisa do bambu, ou seja, se encaixar o pneu na canaleta do bambu, já era. O refresco da descida acaba sobre uma pontezinha precária de madeira que antecede um pequeno bolsão de lama. Deste ponto em diante, nova incursão na mata, agora margeando um riacho que desce no sentido oposto ao nosso percurso. Em diversos pontos é necessário descer da bike para transpor pontos de pontiagudas pedras e cruzar o curso d’água. Apesar de curto, o trecho revela muita beleza por atravessar área de vegetação nativa dentro de um vale.
Leandro Bissoli, Joselayne, Wagner Oliveira, Wagner Sarchis e Rodrigo
Wagner Oliveira
Leandro Leiva e Wagner Oliveira
Seguindo o caminho, a mata fica para trás e a trilha é envolvida por uma ampla montanha em forma de ferradura, cujo vale em seu centro abriga uma pequena e bucólica casa. Na maioria das vezes em que passei por lá, os únicos habitantes presentes eram os cachorros e os búfalos. A melhor opção é subir a colina à esquerda da casa para evitar os cachorros que ficam nos arredores e o pasto encharcado pela nascente que vem da montanha.
Pulando furtivamente a cerca, iniciamos a subida ainda empurrando as bikes e tomando coragem para lutar contra a gravidade. Na mina, ao pé do morro, enchemos squeezes e cantis. Entre tentativas, empurra-bike, pedaladas vigorosas e pausas para respirar, o grupo venceu, cada um ao seu tempo, cerca de dois terços da ladeira, parando na última porteira da subida para um lanche rápido.
Reagrupados, os bikers reiniciaram a pedalada rumo ao cume, a 1157m de altitude. Um após outro foram vencendo a subida. Do alto a vista era deslumbrante e recompensadora. A maior parte da região podia ser vista: ao oeste o Pico do Pão de Angu, em Olaria; ao norte a serra de Ibitipoca e o Pico do Pião; ao leste os arredores de Bias Fortes.
Começa então a descida: sinuosa, íngreme, com várias valetas e pedras soltas, que em boa parte beira um precipício à esquerda. Após a contemplação, restava descer todos aqueles metros acumulados ao longo das inúmeras subidas. O estradão descendente emoldurado pelo céu e as montanhas era uma paisagem perigosa que, distraindo os olhos do caminho, na velocidade em que nossa confiança em nossos freios nos permitia, poderia resultar em um tombo de conseqüências imprevisíveis. No final da descida, de volta ao estradão, um riacho a ser cruzado e mais uma subida longa, seguida de pequenas descidas e subidas que se sucedem pelos próximos 3km. Um último singletrack surge no caminho. O início tranqüilo logo dá lugar a uma parte bastante técnica. Na trilha erodida as laterais altas são um novo obstáculo que apimenta o downhill. Além de todo o esforço para se manter sobre a bike, neste ponto ainda era imprescindível a precisão no percurso. Qualquer vacilo, a bike esbarraria na lateral e ancoraria no terreno, ficando o biker à mercê do nada.
Finalizando na travessia de mais um riacho, uma pequena porteira dá acesso ao estradão e os últimos 4km servem para digerir toda a ação até aqui. Bastava agora girar rumo ao centro de Lima Duarte, fechando os 58km do rolé e seus 1961m de ascensão acumulada.
Wagner Oliveira
A chegada a Lima Duarte, após mais de 6 horas de aventura, tem gosto de vitória sobre os próprios limites.
Trilha da Balsa de Cotegipe 03/07/2011
Sem perrengue
Percurso há muito tempo pretendido, porém não realizado sempre pela falta de informações precisas. Quem conhecia desde as antigas, quando a parte off road era maior, retinha a informação sob o pretexto de que a trilha ficara sem graça devido ao novo asfaltamento. A planilha disponível na internet também continha informações vagas. A solução era ter paciência até encontrar alguém que conhecesse o trajeto e estivesse disposto a encará-lo.
Eis que surge o Leandro Bissoli, que conhecia a trilha e há tempos havia passado um perrengue por lá. Na ocasião, ao chegar ao local de travessia, ponto de cota mais baixa do rolé, estava a balsa naufragada. Teve que subir então pelo caminho da ida, bem mais pesado.
Para não correr o risco, uma semana antes desta nova empreitada, Leandro foi à balsa pelo asfalto verificar se estava funcionando. Confirmado o funcionamento, restava agora convocar os bikers para o rolé.
Manhã ensolarada de domingo, hora de colocar a bike na trilha. No ponto de encontro dezesseis bikers se reuniram, entre eles Hebert, Leandro Bissoli, Maxwell, PC, Ramon, Wagner Sarchis e Wagner Oliveira. Descendo pela estrada do Vagão o grupo seguiu pela MG353 até o entroncamento com a estrada de Belmiro Braga, por onde os bikers abandonaram a rodovia, continuando no asfalto.
Várias descidas e longos trechos planos garantiram bastante velocidade nesta primeira metade do rolé. Em pouco tempo a divisa Juiz de Fora / Belmiro Braga ficou para trás e os bikers seguiam pela margem direita do Rio do Peixe. Alguns quilômetros adiante o pelotão deixou o asfalto pela esquerda na Vila São Francisco, onde começou o segundo trecho off road. Ainda margeando o rio, várias fazendas foram sendo atravessadas. Pouco a pouco a vegetação foi mudando e o estradão ora tomava ares de singletrack, mas nada técnico.
Depois do giro na terra, finalmente os bikers chegaram à margem do Rio Paraibuna, pouco abaixo da foz com o Rio do Peixe. A balsa, um tablado de madeira de aproximadamente 6m² apoiado sobre tambores plásticos, com um guarda-corpo de menos de 1m de altura, desliza por meio de uma corrente sobre um robusto cabo de aço fixado perpendicularmente ao rio. Isto para que a embarcação não seja levada pela correnteza, principalmente em época de cheia. Divididos em duas turmas, devido à capacidade da balsa, os bikers fizeram a travessia conduzidos por um morador das proximidades.
Todos levaram uma gorjeta para agradecer ao condutor, mas se surpreenderam ao perguntá-lo quanto deviam pelo serviço: R$80,00 por menos de 10 minutos de travessia. Se entreolharam sem graça e, por não terem perguntado antes de pedirem o serviço, não tiveram alternativa senão pagar. Terminaram de se ajeitar sobre as bikes e partiram rumo à União Indústria, comentando do impacto da gorda gorjeta na vida local. Oitenta reais convertidos em cachaça e torresmo provavelmente deixariam a comunidade sem balsa por, pelo menos, uma semana.
A pedalada seguiu em direção a Matias Barbosa, onde os bikers fizeram uma parada estratégica para lanchar em uma padaria. Seguiram logo depois pela estrada da Paciência e de lá pelo acesso até a BR040, onde se iniciou a parte mais desafiadora do rolé, a subida dos quase 8km até o Salvaterra. Neste ponto o pelotão se dispersou e a resistência de cada um foi ditando o ritmo.
O grupo só foi se reunir novamente no local onde iniciaram o rolé, após 52km (seriam 63km contados desde o centro) e pouco mais de 700 metros de ascensão acumulada com média de 19,1km/h. Fat Biker XC [+]
Trilha da Santa 23/06/2011
Níveis de perrengue: 1, 4 e 5
Num feriado frio e cinzento, tudo indicava que a chuva seria inevitável. Os e-mails dos dias anteriores não foram o suficiente para garantir muitas adesões entre os conhecidos. Apenas eu, Leandro Bissoli e Wagner Sarchis confirmaram presença. Enquanto nos reuníamos no posto do Parque da Lajinha outros bikers chegavam. Descobrimos amigos em comum, fomos negociando o roteiro e em pouco tempo partíamos em um total de onze ciclistas. Além dos já citados, integraram o time: Beto, Giovanni, Luciano, Luciano Salu, Hebert, Messias, Raini e Vinicius.
Descemos a estrada do Vagão, cada qual a seu ritmo. Reagrupamos na baixada e seguimos vigorosamente até a entrada da Trilha da Santa. Ao passar pelos cachorros eram tantas rodas que os mesmos ficaram sem saber o que fazer, apenas latiram. Terminando o estradão, alguns bikers reabasteceram as caramanholas na mina e então iniciamos o singletrack, que era inédito para mais da metade do grupo.
A longa fila se formou e, um após outro, os bikers foram passando mata adentro. À medida que subíamos o grupo foi se dispersando. Os primeiros limparam os carrapatos da trilha. Aos demais restaram o mato e os galhos. Apesar disso, a trilha estava mais limpa do que das últimas vezes em que estivemos nestas bandas.
A promessa de chuva não se cumpriu e, em certos momentos no interior da mata, chegou a fazer calor. Após a primeira metade do singletrack, na maior parte aclive, restava agora desfrutar da gravidade e tocar para baixo. Os trechos que costumam estar úmidos e não dar aderência aos pneus estavam secos, então pudemos aumentar a velocidade. Os únicos obstáculos foram as touceiras de capim gordura no meio do caminho. Lá embaixo nova reunião e partimos para a subida.
Ao chegar à BR040, a parada estratégica na torneira serviu de reabastecimento de água e local de refresco. Restava finalizar a subida na rodovia para terminar o rolé. Fat Biker XC [+]